A busca por equidade de gênero é uma pauta urgente, complexa e, acima de tudo, coletiva. Durante muito tempo, o debate sobre igualdade entre homens e mulheres foi tratado como uma “questão das mulheres” – mas hoje, sabemos com mais clareza: sem o engajamento ativo e intencional dos homens, a equidade plena não acontece.
Um pouco de contexto: da exclusão histórica à necessidade de reconstrução conjunta
Ao longo da história, mulheres foram sistematicamente excluídas dos espaços de poder e decisão. A liderança sempre teve um “rosto masculino” e um padrão comportamental rigidamente definido: racionalidade, competitividade, infalibilidade. Essa construção, além de injusta com as mulheres, também aprisiona os homens em modelos de atuação que muitas vezes não mais os representam, perpetuando o chamado “patriarcado”, que nada mais é do que um sistema social onde os homens detêm o poder e a autoridade política, moral e econômica.
Evidências desse sistema fazem mais parte do nosso dia a dia do que o que a gente imagina.
Embora as mulheres representem uma parcela significativa da força de trabalho (45% no Brasil, segundo o IBGE), dados mostram que elas ainda enfrentam desigualdades significativas. A disparidade salarial, por exemplo, ainda é uma realidade dura da carreira feminina. No levantamento divulgado na 2a-feira passada, dia 7, pelos ministérios da Mulher e do Trabalho e Emprego, se confirmou, mais uma vez, que as mulheres brasileiras receberam salários, em média, 20,9% menores do que os homens em 2024 em mais de 53 mil estabelecimentos pesquisados com 100 ou mais funcionários. Isso está bem explorado no 3º Relatório de Transparência Salarial e Igualdade Salarial.
Outra evidência contundente do sistema operante é a sub-representação em cargos de liderança também é significativa: mulheres ocupam apenas 39,3% dos cargos de liderança em setores público e privado no Brasil, e representam apenas 13% dos CEOs nas empresas brasileiras (LinkedIn, 2025). Além disso, as mulheres dedicam em média o dobro do tempo que os homens a tarefas domésticas e de cuidado (IBGE, 2019), o que pode limitar suas oportunidades de desenvolvimento profissional.
Nesse cenário onde a equidade de gênero nada mais é do que um movimento justo, a grande questão que fica é: como equilibrar a presença feminina sem ameaçar a a masculinidade? Como partilhar poder sem perder autoridade? E é aqui que nasce a importância de falarmos do homem aliado.
Mas, antes de mais nada, o que é um homem aliado?
No nosso entender, homem aliado é aquele que:
- Reconhece os próprios privilégios e os coloca a serviço de uma cultura mais justa.
- Está disposto a escutar, refletir e corrigir posturas.
- Entende que equidade não é ameaça, é evolução.
- Atua como patrocinador de talentos femininos, não apenas como mentor.
- Constrói ambientes psicologicamente seguros para que todas as vozes sejam ouvidas.
Como disse Jackson Katz, especialista em violência de gênero e masculinidades:
“A equidade de gênero não é uma questão de mulheres. É uma questão de humanidade. E os homens têm um papel central nisso.”
Tendências e dados que reforçam o chamado à ação
- Impacto nos Resultados: Segundo a McKinsey (2023), empresas com homens ativamente engajados em iniciativas de equidade de gênero apresentam resultados 3x mais rápidos na redução de desigualdades internas. Além disso, estudos da Catalyst mostram que empresas com maior diversidade de gênero em conselhos e equipes de liderança apresentam um retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) 53% maior do que aquelas com menor diversidade (Catalyst, 2019). A Boston Consulting Group (BCG) também mapeou que empresas com maior diversidade de gênero em equipes de gestão têm um aumento de 19% na receita devido à inovação (BCG, 2018).
- Influência Cultural: A Harvard Business Review reforça que homens aliados são influenciadores-chave da cultura, e seu comportamento tende a inspirar outros homens a mudarem. Quando os homens se tornam defensores ativos da equidade, eles desafiam as normas de gênero tradicionais e criam um ambiente onde todos se sentem mais seguros e valorizados.
- Desafios do Engajamento: Ainda assim, menos de 30% dos homens se sentem confortáveis em se posicionar publicamente como aliados, por medo de errar ou serem julgados. Pesquisas de Brené Brown sobre vulnerabilidade e vergonha mostram que o medo de ser julgado e a falta de segurança psicológica podem inibir o engajamento em conversas sobre diversidade e inclusão. Além disso, a “cultura do cancelamento” e o receio de represálias podem criar um clima de ansiedade e autocensura, dificultando o diálogo aberto e honesto sobre questões de gênero.
- Dados de Representatividade: No Brasil, as mulheres ocupam apenas 39,3% dos cargos de liderança (IBGE, 2022), 32% dos cargos de gerência (LinkedIn, 2025) e representam apenas 13% dos CEOs nas empresas brasileiras (LinkedIn, 2025). Essa desigualdade na representatividade se agrava em determinados setores, como tecnologia e finanças, onde a presença feminina em cargos de liderança é ainda menor. Por exemplo, em 2023, 8 em cada 10 líderes em tecnologia eram homens (LinkedIn, 2025).
- Impacto Social: A equidade de gênero não beneficia apenas as empresas, mas também a sociedade como um todo. Estudos da ONU Mulheres mostram que a igualdade de gênero está diretamente ligada ao desenvolvimento sustentável, ao crescimento econômico, à redução da pobreza e à melhoria da saúde e do bem-estar das comunidades. Por exemplo, a ONU Mulheres estima que o PIB global poderia aumentar em até US$ 28 trilhões até 2025 se a desigualdade de gênero no emprego fosse eliminada (ONU Mulheres, 2015).
É nessa lacuna onde precisamos atuar: com escuta, empatia, educação e convite ao protagonismo compartilhado.
Homens são parceiros fundamentais na construção de um mundo mais equitativo
Na AngelUs, acreditamos que a equidade de gênero é uma necessidade estratégica para o crescimento sustentável das empresas e da sociedade.
Acreditamos que os homens são parceiros essenciais na jornada pela equidade de gênero. Não são o problema a ser resolvido, mas sim agentes de mudança com o poder de desafiar normas culturais e promover ambientes mais justos.
Mas o que os homens podem fazer para se tornarem aliados?
Várias atitudes podem representar essa aliança. Entre elas:
- Se dispor a ouvir, aprender, refletir e mudar seus próprios comportamentos sempre que necessário – o que envolve reconhecer privilégios, desafiar o status quo e patrocinar o crescimento de mulheres que mereçam.
- Praticar uma liderança mais inclusiva, que valorize a colaboração, a empatia e a diversidade, qualidades que podem ser encontradas tanto em homens quanto em mulheres. Homens que adotam essa postura contribuem para ambientes de trabalho mais produtivos e inovadores.
- Trabalhar juntos para construir um futuro onde todos tenhamos as mesmas oportunidades.
E o que a AngelUs pode fazer nesse sentido?
Nosso propósito é apoiar mulheres em suas trajetórias profissionais, mas também acreditamos na importância de sermos agentes de transformação na busca por espaços seguros de reflexão e aprendizagem para todos.
E com isso em mente, oferecemos abordagens para homens, sem confronto, com escuta ativa, visitando temas como vieses inconscientes, masculinidade tóxica, comunicação e liderança inclusiva, formação de lideranças que patrocinam a equidade de forma ativa, desenvolvendo habilidades de liderança empática, colaborativa e transformadora, que priorizam a diversidade e a inclusão.
Visão de futuro: equidade como valor compartilhado
A nova liderança é empática, adaptável, corajosa e plural. O futuro do trabalho exige menos comando e controle, e mais escuta e cocriação. E isso não é uma agenda de mulheres. É uma agenda de líderes preparados para o que vem.